sábado, 11 de agosto de 2018


As Disciplinas Espirituais
Gl.5.16-26; 6.7,8                 
Pb Francisco -  Escola Bíblica Dominical IPB Emaús – 29/07/2018

Introdução
No ultimo domingo, pela manhã falamos sobre 4 características singulares e fundamentais para compreensão do que é o Reino de Deus, e o quanto e como essa compreensão deve dirigir nosso modo de viver (o texto em que nos baseamos foi Romanos 14). À noite falamos sobre a experiência de Davi em sua relação com o Sumo Pastor (Salmo 23), e há ali uma amostra de 2 caminhos:
  •              O andar pelo caminho elevado das “veredas da justiça”, sob a obediência do Sumo Pastor.
  •           O andar no “vale da sombra e da morte” pelas nossas próprias decisões.
Em João 10, Jesus se identifica como o Bom Pastor (Sl23), a quem as ovelhas conhecem a voz e seguem. Pois bem, agora a questão é de que forma prática podemos viver e expressar essas realidades? Nesse ponto, sempre nos deparamos com um dilema:
·         Justiça, como dom gratuito de Deus, imputada a nós.
Vrs.
·         Esforço humano,que sempre acaba em falência moral.

O que fazer ?
Se os esforços humanos terminam em falência moral (e tendo-o tentado, sabemos que é assim), e se a justiça é um dom gratuito de Deus (conforme a Bíblia nos mostra com clareza), então não é lógico deduzir que devemos esperar que Deus venha e nos transforme? Por estranho que pareça, a resposta é “não”. A análise é correta: o esforço humano é insuficiente e a justiça é o dom de Deus. O que é falha é a conclusão, pois felizmente existe algo que podemos fazer. Não precisamos agarrar-nos às pontas do dilema das obras nem da ociosidade humanas.
Deus nos deu as Disciplinas da vida espiritual como meio de receber sua graça.
As Disciplinas permitem-nos colocar-nos diante de Deus de sorte que ele possa transformar-nos.
O apóstolo Paulo disse: “O que semeia para a sua própria carne, da carne colherá corrupção; mas o que semeia para o Espírito, do Espírito colherá vida eterna” (Gálatas 6:8). O lavrador não consegue fazer germinar o grão; tudo o que ele pode fazer é prover as condições certas para o crescimento do grão.
Ele lança a semente na terra onde as forças naturais assumem o controle e fazem surgir o grão. O mesmo acontece com as Disciplinas Espirituais - elas são um meio de semear para o Espírito. As Disciplinas são o meio de Deus plantar-nos na terra; elas nos colocam onde ele possa trabalhar dentro de nós e transformar-nos. Sozinhas, as Disciplinas Espirituais nada podem fazer; elas só podem colocar-nos no lugar onde algo possa ser feito. Elas são os meios de graça de Deus. A justiça interior que buscamos não é algo que seja derramado sobre nossas cabeças. Deus ordenou as Disciplinas da vida espiritual como meios pelos quais somos colocados onde ele pode abençoar-nos. (A Celebração da Discilplina, Richard Foster)
Conforme o trecho em destaque acima, o dilema proposto inicialmente é uma invenção nossa. Deus, em sua infinita bondade e sabedoria, nos deu disciplinas espirituais como meios de graça. Não devemos, portanto, nos assentar comodamente no mote “a salvação é pela graça e não por obras” e viver uma vida inteiramente ociosa.
Deus nos deu disciplinas como meios de Graça

O propósito dessas disciplinas é transformação de nossas vidas de dentro para fora, e assim nos fazer verdadeiros cidadãos do Reino de Deus, verdadeiras ovelhas do rebanho de Sumo Pastor.
Não devemos ser levados a crer que as Disciplinas são para os gigantes espirituais e, por isso, estejam além de nosso alcance; ou para os contemplativos que devotam todo o tempo à oração e à meditação. Longe disso.
Na intenção de Deus, as Disciplinas da vida espiritual são para seres humanos comuns: pessoas que têm empregos, que cuidam dos filhos, que lavam pratos e cortam grama. Na realidade, as Disciplinas são mais bem exercidas no meio de nossas atividades normais diárias. Se elas devem ter qualquer efeito transformador, o efeito deve encontrar-se nas conjunturas comuns da vida humana: em nossos relacionamentos com o marido ou com a esposa, com nossos irmãos e irmãs, ou com nossos amigos e vizinhos. Nem deveríamos pensar nas Disciplinas Espirituais como uma tarefa ingrata e monótona que visa a exterminar o riso da face da terra. Alegria é nota dominante de todas as Disciplinas. O objetivo das Disciplinas é o livramento da sufocante escravidão ao auto-interesse e ao medo. Quando a disposição interior de alguém é libertada de tudo quanto o subjuga, dificilmente se pode descrever essa situação como tarefa ingrata e monótona. Cantar, dançar, até mesmo gritar, caracterizam as Disciplinas da vida espiritual. (Richard Foster)
Vamos descrever brevemente aqui, algumas dessas disciplinas. Talvez, os nomes nos sejam familiares, mas a prática e o exercício dessas disciplinas não sejam tão claros assim. Que o Senhor nos ajude a compreende-las corretamente, e sobretudo que sintamos motivação e satisfação em praticá-las.

1.     Disciplina da Oração

Oração é mudar. Podemos dizer que oração é o meio de Graça de Deus, que visa transformar a nossa vida. Geralmente pensamos na oração como meio de mudar as coisas à nossa volta, mudar circunstâncias adversas, trazer paz e comodidade para nossa vida. Esses motivos não estão errados, mas o propósito primordial da oração é mudar a nós mesmos. “A oração - a oração secreta, fervorosa, de fé - jaz à raiz de toda piedade pessoal”, escreve William Carey.  Se não estivermos dispostos a mudar abandonaremos a oração. As coisas/situações que nos causam ansiedade podem e devem ser colocadas diante de Deus através da oração, e não há nenhum problema em pedir que Deus aja mudando essas situações. Mas veja, quando Paulo nos ensinou essa prática (Fp.4.6,7) ele não deu a solução do que está nos afligindo como resultado dessa oração, mas uma mudança na nossa mente e coração. Mas é bom salientarmos: “É fácil sermos derrotados logo de início por nos haverem ensinado que tudo no universo já foi determinado, e assim as coisas não podem ser mudadas. Podemos melancolicamente sentir-nos desse modo, mas não é isso o que a Bíblia ensina.
Os suplicantes que encontramos na Bíblia agiam como se suas orações pudessem fazer e fizessem uma diferença objetiva. O apóstolo Paulo alegremente anunciou que “somos cooperadores de Deus” (1 Coríntios 3.9); isto é, estamos trabalhando com Deus para determinar o resultado dos acontecimentos. O estoicismo, e não a Bíblia, é que exige um universo fechado. Muitos, com sua ênfase sobre aquiescência e resignação ao modo de ser das coisas como “a vontade de Deus”, aproximam-se mais de Epícteto que de Cristo. Moisés foi ousado na oração porque acreditava poder mudar as coisas, e mudar até mesmo a mente de Deus. De fato, a Bíblia de tal modo acentua a abertura de nosso universo que, num antropomorfismo duro para os ouvintes modernos, ela fala que Deus constantemente muda de idéia de acordo com seu amor imutável (Êxodo 32.14; Jonas 3.10).
Outro ponto importante a ser destacado nas práticas da disciplina da oração é a  oração secreta. Qualquer prática das disciplinas espirituais é terrível, quando transformadas por nós em lei que nos aprisionam a uma exibição meramente externa. Jesus nos ensinou isso nos evangelhos: “E, quando orardes, não sereis como os hipócritas; porque gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, para serem vistos dos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. Tu, porém, quando orares, entra nos teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.” (Mt. 6.5,6). Com isso evidentemente, não estamos dizendo que haja qualquer problema nas reuniões de oração, mas salientando o ensino de que devemos desenvolver uma prática de oração particular, onde temos uma maior liberdade para expor nossas vidas diante de Deus.
Aprendendo a Orar
A verdadeira oração é algo que aprendemos. Os discípulos pediram a Jesus:
“Senhor, ensina-nos a orar” (Lucas 11.1). Eles haviam orado a vida toda, não obstante, algo acerca da qualidade e quantidade da oração de Jesus levou-os a ver quão pouco sabiam a respeito da oração. Se a oração deles havia de produzir alguma diferença no cenário humano, era preciso que eles aprendessem algumas coisas.
Uma das experiências libertadoras em minha vida aconteceu quando entendi que a oração implicava um processo de aprendizado. Senti-me livre para indagar, para experimentar, até mesmo para falhar, pois eu sabia que estava aprendendo. (Richard Foster)
 

2.     Disciplina do Jejum

O Jejum na Bíblia
“Nas Escrituras o jejum refere-se à abstenção de alimento para finalidades espirituais. Ele se distingue da greve de fome, cujo propósito é adquirir poder político ou atrair a atenção abstinência de alimento, mas para propósitos físicos e não espirituais. Devido à secularização da sociedade moderna, o “jejum” (se de algum modo praticado) é motivado ou por vaidade ou pelo desejo de poder. Isto não quer dizer que essas formas de “jejum” sejam necessariamente erradas, mas que seu objetivo difere do jejum descrito nas Escrituras. O jejum bíblico sempre se concentra em finalidades espirituais.” R. Foster, p.41
O jejum é uma prática esquecida e desacreditada no nosso tempo, mas poderíamos listar uma série interminável de homens na Bíblia e ao longo da história que praticaram e ensinaram sobre. Um excelente trecho bíblico que ensina sobre o Jejum está lá no profeta Isaías capítulo 58, de onde pode destacar brevemente alguns pontos aqui:
·         O jejum, não tem como propósito atender os nossos caprichos, e nos conceder conforto e tranqüilidade. Mas como já dissemos as disciplinas espirituais visam primordial mudar a nós mesmos. Is.58.1-3
·         O jejum, não é pura e simples abstinência de alimento, mas deve ser acompanhada de um esforço para viver vida santa nas nossas práticas e relações. Is.58.5-7
·         O jejum é ainda um meio de nos aproximar mais de Deus, de forma que Ele seja bem percebido por nós em todos os nossos caminhos. Is.58.8-11
·         O jejum é também um meio por excelência de alimentar nossa alma, e abençoar nossa posteridade. Is.58.11-12
·         Essa prática nos livrará ainda de vivermos em função dos próprios interesses. Is.58.13-14.

3.     Disciplina da Simplicidade

Como todas as disciplinas espirituais ensinadas nas Escrituras, a vida simples é uma realidade interior que se faz perceber no exterior.
“Quando vivemos verdadeiramente na simplicidade interior, toda a nossa aparência é mais franca, mais natural. A verdadeira simplicidade... faz-nos cônscios de certa abertura, moderação, inocência, alegria e serenidade, o que é encantador quando o vemos de perto e continuamente, com olhos puros. Oh, quão amável é esta simplicidade! Quem ma dará? Por ela deixo tudo. Ela é a pérola do Evangelho.” - François Fénelon
Vivemos em uma época em que a simplicidade definitivamente não é reconhecida como uma virtude. Em geral, as pessoas do nosso tempo são motivadas por modas, títulos, ostentação ou buscas por adquirir coisas para impressionar. E é óbvio que quando vivemos com essas motivações perdemos contato com a simplicidade cristã, simplicidade do Evangelho. Somos afligidos por necessidades impostas pelo mundo
“Falta à cultura contemporânea tanto a realidade interior como o estilo de vida de simplicidade exterior. Internamente o homem moderno está fraturado e fragmentado. Encontra-se perdido num labirinto de realizações competidoras. Num momento ele toma decisões com base na razão sadia, e no momento seguinte o faz por medo do que os outros venham a pensar dele. Ele não tem unidade ou foco em torno do qual a vida se oriente. Pelo fato de faltar-nos um Centro divino, nossa necessidade de segurança tem-nos induzido a um apego insano às coisas. Devemos entender com clareza que o ardente desejo de abundância na sociedade contemporânea é de natureza psicótica. É psicótica porque perdeu por completo o contato com a realidade.” (Foster, p.65)
Mas, vejamos o caminho que as Escrituras nos ensinam como estilo de vida:
“Aprendi a viver contente em toda e qualquer situação. Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de tudo, e em todas as circunstancias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundancia como de escassez; tudo posso naquele que me fortalece.” Fp.4.11-13
Podemos destacar algo nesse trecho:
  •       Primeiro Paulo nos mostra que essa simplicidade foi aprendida (v.11)
  •          Podemos também inferir, que essa prática é libertadora, pois Paulo não tem necessidade de demonstrar algo em sua vida que não seja a realidade que ele está vivendo no momento.
  •          Quem o fortalece é Cristo, e não algum bem, ou alguma coisa externa.(v.13)
“Se alguém ensina outra doutrina e não concorda com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo e com o ensino segundo a piedade, é enfatuado, nada entende, mas tem mania por questões e contendas de palavras, de que nascem inveja, provocação, difamações, suspeitas malignas, altercações sem fim, por homens cuja mente é pervertida e privados da verdade, supondo que a piedade é fonte de lucro. De fato, grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento.  Porque nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele.  Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes.” 1Tm.6.3-8

·         “Enfatuado” é vaidoso e vazio, alguém que buscas as coisas mais vazias dessa vida e as confundem como sendo o objetivo da vida cristã nos abastecer de bens materiais, de onde só nascem inveja, provocação, difamações, disputas (altercações)
·         A piedade só é real e tem valor quando vem acompanhada de contentamento.
·         A vida simples ensinada pelo Evangelho é uma vida livre dos valores desse mundo (Mt.6.19-210
·         O contentamento é a verdadeira marca de uma ovelha do supremo Pastor, e do cidadão do Reino de Deus.

“Seja a vossa vida sem avareza. Contentai-vos com as coisas que tendes; porque ele tem dito: De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei.” Hb.13.5

·         Uma vida simples, liberta da avareza, é uma vida marcada pelo contentamento, e, sobretudo uma vida que repousa tranquilamente na provisão de Deus.

A simplicidade é a única coisa que pode adequadamente reorientar nossas vidas de sorte que as posses sejam autenticamente desfrutadas sem destruir-nos. Sem a simplicidade, ou capitularemos ao espírito de “Mamom” da presente era má, ou cairemos num ascetismo legalista e anticristão. Ambas as situações levam à idolatria. Ambas são espiritualmente fatais. Foster, p.69

Há ainda uma série de outras Disciplinas Espirituais, que poderemos falar em outra oportunidade. Deixamos aqui algumas delas com breves definições e observações extraídas do livro Celebração da Disciplina (Richard Foster, editora Vida). Recomendamos a leitura e estudo desse livro para um maior aprofundamento nessas disciplinas.        

4.     Disciplina do Estudo

“Quem estuda somente os homens, adquire o corpo do conhecimento sem a alma; e quem estuda somente os livros, a alma sem o corpo. Quem adiciona a observação àquilo que vê, e reflexão àquilo que lê, está no caminho certo do conhecimento, contanto que ao sondar os corações dos outros, não negligencie o seu próprio.” - Caleb Colton

·         Estudo é um tipo específico de experiência em que, mediante cuidadosa observação de estruturas objetivas, levamos os processos de pensamento a moverem-se numa determinada direção.
·         No estudo há dois “livros” a serem estudados: verbal e não verbal. Livros e preleções constituem, portanto, apenas metade do campo de estudo, talvez menos.
·         O mundo da natureza e, muitíssimo importante, a observação cuidadosa dos acontecimentos e das ações são os campos básicos do estudo não verbal.

5.     Disciplina da Confissão

“A confissão de obras más é o primeiro começo de obras boas.” - Agostinho de Hipona                           
·         “Mas não é a confissão uma graça em vez de uma Disciplina?” Ela é ambas. A menos que Deus conceda a graça, não há confissão autêntica. Mas é também uma Disciplina, porque há coisas que devemos fazer. É um curso de ação conscientemente escolhido que nos conduz à sombra do Todo-poderoso.
·         Achamos a confissão uma Disciplina tão difícil em parte porque vivemos a comunidade dos crentes com uma comunhão de santos antes de vê-la como uma comunhão de pecadores.
·         Na Disciplina da confissão pedimos a Deus que nos dê um ardente desejo de viver santamente, e um ódio pela vida ímpia.
Há ainda,

6.     Disciplina da Solitude 

7.     Disciplina da Adoração

8.     Disciplina da Celebração


Que o Senhor nos conduza  pelos caminhos das santas disciplinas, conscientes de que essas disciplinas é que nos livrarão da escravidão de hábitos arraigados em nós. Que Ele nos faça humildes para aprender dEle sabendo que acolhe todos os “que estão cansados, e sobrecarregados” e encontraremos nisso “descanso para nossa alma”, pois as Disciplinas Espirituais são Seu “Jugo suave, e fardo leve”.

BIBLIOGRAFIA

BIBLIA, Almeida Revista e Atualizada

FOSTER, Richard J. Celebração da Disciplina:O Caminho do Crescimento Espiritual. São Paulo. Editora Vida, 2007




terça-feira, 5 de junho de 2018

Bíblia Ensinada ou Espírito Ensinado

Pode ser um choque para alguns leitores sugerir que há dife­rença entre ensinar-se a Bíblia e ensinar-se o Espírito. Todavia, as­sim é.

É inteiramente possível ser instruído nos rudimentos da fé e, contudo, não se ter nenhum real entendimento da coisa toda. E é pos­sível ir avante e tornar-se especialista em doutrina bíblica e não se ter iluminação espiritual, com o resultado que permanece um véu sobre a mente, impedindo-a de aprender a verdade em sua essência espiritual.

A maioria de nós conhece igrejas que ensinam a Bíblia às suas crianças desde os seus mais tenros anos, dão-lhes longas instruções no catecismo, treinam-nas ainda mais em aulas ministradas pelo pas­tor, e, apesar disso, nunca produzem nelas um cristianismo vivo, nem uma piedade viril.
... A sua vida religiosa é correta e razoavelmente moral, mas totalmente mecânica e completamente carente de brilho

A.W.Tozer, Bíblia Ensinada ou Espírito Ensinado, O Melhor de A.W.Tozer, Ed Mundo Cristão, 1995

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Oração, por S. João Clímaco

"Oração, segundo sua condição e natureza, é união do homem com Deus. Segundo seus efeitos e operações, oração é guarda do mundo, reconciliação com Deus, mãe e filha das lágrimas, perdão dos pecados, ponte para passar as tentações, muralha contra as tribulações, vitória das batalhas, obra de anjos, mantimento das substâncias incorpóreas, gosto da futura alegria, obra que não se acaba, depósito de virtudes, procuradora das graças, aproveitamento invisível,  mantimento da alma, luz do entendimento, cutelo da desesperação, argumento da fé, desterro da tristeza, riqueza e tesouro dos solitários, diminuição da ira, espelho do aproveitamento, indício da medida das virtudes, declaração do nosso estado, revelação das coisas futuras e significação da clemência divina aos que perseveram chorando nela...nela o homem se conhece, se acusa, se escusa e pede misericórdia" S.João Clímaco, A Santa Escada. Ed.Cultor de Livros. 2014. p.
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sexta-feira, 3 de abril de 2015

“Não se turbe o vosso coração”


Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar. E, quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também. E vós sabeis o caminho para onde eu vou. Disse-lhe Tomé: Senhor, não sabemos para onde vais; como saber o caminho? Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim. João 14.1-6 


 O que fazer quando estamos à beira de um precipício, e quando as situações vão se tornando difíceis à nossa frente e não conseguimos enxergar saída? O que fazer quando as noticias não são animadoras, e quando tudo parece estar fora de controle? 
Esse texto do Evangelho de João nos apresenta uma única resposta à todos esses dilemas. 
O contexto é o Sermão do Cenáculo (João 13-17), ou Sermão de despedida. Em muito pouco tempo Jesus de Nazaré se ausentaria deles. Dalí há apenas algumas horas aquele que chamou a cada um dos discípulos, andou com eles por 3 anos, apresentou-lhes o reino, os ensinou, falou-lhes de promessas grandiosas, fez milagres, encheu os seus corações de esperança, disse tudo quanto haveria de acontecer e os mandou proclamar suas palavras, seria visto por eles preso, chicoteado, espancado, humilhado, escarnecido, como um malfeitor. E por fim ainda o veriam pregado numa cruz se esvaindo em sangue e sem esboçar qualquer reação. Embora Jesus houvesse alertado da necessidade de tudo isso acontecer, esse cenário seria na mente dos discípulos um ”desastre catastrófico”. 
Então era necessário que eles ouvissem agora “Não se turbe o vosso coração”. Não fiquem agitados, não se deixem ser abalados, não se desesperem, não desanimem. O “não se turbe” dá conta de que os acontecimentos a seguir seriam realmente perturbadores. Mas de que forma eles deveriam acalmar os corações? 

De que forma deveriam acalmar os corações? 

 “...Credes em Deus, e crede também em mim.”(Jo.14.1). Os verbos “credes” e “crede” aqui podem estar tanto no indicativo quanto no imperativo. Assim algumas possíveis traduções¹ sugerem “creiam em Deus, creiam também em mim”, com ambos no imperativo; ou “se vocês Creem em Deus, creiam também em mim, com indicativo no primeiro e imperativo no segundo. Mas o que mais se harmoniza com o contexto é um indicativo/imperativo que dá idéia de ato contínuo, ou seja, continuem crendo em Deus e continuem crendo também em mim. Diante de um tempo de tão profunda angústia ele aponta para o remédio, para que não se sentissem vencidos e esmagados². Essa é a resposta pura e simples do Evangelho para as aflições que enfrentamos no mundo (Jo.16.33) Continuar crendo!

 A cristologia do texto também deve ser observada como destacou Carson (p.488):
Embora a última opinião seja a melhor, todas as três assumem uma cristologia formidavelmente elevada, pois relacionam Jesus com o Pai como um objeto apropriado de fé. Para leitores sérios deste evangelho, porém, o elo é quase inevitável. Se Jesus invariavelmente fala as palavras de Deus e realiza os atos de Deus (5.19ss.), não se deveria crer que ele é Deus? Se ele diz a seus seguidores para que não se turbe o coração, não será por que ele tem ampla e justificada razão?

 Porque deveriam continuar crendo? 

 1. Deveriam continuar crendo porque receberam promessa de lugar permanente

 “Na casa de meu Pai há muitas moradas” (Jo.14.2) A palavra traduzida por “morada” nesse texto (monai, grego) só aparece aqui e em 14.23. Se aqui ela trás a idéia da nossa habitação permanente com o Senhor, que evocam ressurreição, redenção e glorificação, no verso 23 ela fala da habitação permanente de Deus conosco o que traria uma consolação mais imediata em face da tragédia que se avizinhava. Isso apontava para a promessa do “outro consolador”, de que Jesus falaria extensamente ainda no Sermão do Cenáculo. Assim temos a promessa de habitar para sempre com ele no porvir, mas também a promessa de que jamais estaríamos desamparados aqui (Mt.28.20, Jo.14.23) 

2. Deveriam continuar crendo porque esse “ausentar-se” era para beneficio dos discípulos 

“Vou preparar-vos lugar” (Jo.14.2) O texto não está dizendo, como alguns interpretam, que o lugar existe mas carece de preparação. Como destacou Carson, “o próprio ato de ir, via cruz e ressurreição, prepara o lugar para os discípulos”(p490). 
 Existem duas promessas ligadas e apontados no contexto que mostram os benefícios desse ausentar-se: 
O envio do Consolador – “Mas, agora, vou para junto daquele que me enviou, e nenhum de vós me pergunta: Para onde vais?Pelo contrário, porque vos tenho dito estas coisas, a tristeza encheu o vosso coração.Mas eu vos digo a verdade: convém-vos que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei. Jo.16.5-7
O retorno em glória – “Percebendo Jesus que desejavam interrogá-lo, perguntou-lhes: Indagais entre vós a respeito disto que vos disse: Um pouco, e não me vereis, e outra vez um pouco, e ver-me-eis? Em verdade, em verdade eu vos digo que chorareis e vos lamentareis, e o mundo se alegrará; vós ficareis tristes, mas a vossa tristeza se converterá em alegria. A mulher, quando está para dar à luz, tem tristeza, porque a sua hora é chegada; mas, depois de nascido o menino, já não se lembra da aflição, pelo prazer que tem de ter nascido ao mundo um homem. Assim também agora vós tendes tristeza; mas outra vez vos verei; o vosso coração se alegrará, e a vossa alegria ninguém poderá tirar. Jo.16.19-22
 3. Deveriam continuar crendo porque havia segurança de que eles conheciam o caminho 

“E vós sabeis o caminho para onde eu vou.” Jo.14.4 Os discípulos sabem que a morte de Cristo é o caminho necessário e já de antemão conhecido, e que portanto não significava o fim de toda esperança, embora isso ainda não tivesse inteiramente claro para eles e só o ficaria depois de tudo consumado (Jo.12.16; 14.26) 

“Disse-lhe Tomé: Senhor, não sabemos para onde vais; como saber o caminho?” Jo.14.5 A pergunta de Tomé nesse ponto aparentemente contradiz o que Jesus acabara de dizer, mas o que ele cogita é de detalhes do que o Mestre disse e que ele (e os demais discípulos) não sabiam. Mas o que eles sabiam até então era suficiente, como fica claro na resposta de Jesus. 

“Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.” Jo.14.6   Essa resposta de Jesus a indagação de Tomé mostra que eles poderiam ficar seguros de que o que eles sabiam era suficiente. Inicialmente Jesus fala do caminho da cruz (Jo.13.33-36), Tomé então questiona desse caminho para a cruz e Jesus replica que o caminho que eles precisam conhecer eles já o conhecem. Pois ele mesmo “é o caminho, e a verdade e a vida” 

Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize

Muitas são as aflições, angustias e incerteza que temos que enfrentar. Os tempos difíceis chegam. Nossa segurança está em permanecer na fé. Fé de que temos lugar permanente com Ele e a permanência dEle para sempre conosco (Mt.28.20; Jo.14.23). Fé de que Ele é Deus e controla todas as coisas. Fé de que suas promessas se cumprirão e suas palavras jamais passarão. Fé de que mesmo em nossas limitações conhecemos o Caminho que ele graciosamente nos revelou e de que por esse caminho temos livre acesso a Ele (Hb.10.19,20). Diante das aflições da vida somo encorajados a crer como os discípulos foram, e mesmo que vissem o Messias morrendo pendurado numa cruz, o veriam ressurreto e glorificado, receberiam poder para testemunhar (At.1.8) e ainda o veriam voltando para tomá-los para si e para viverem eternamente com ele (Jo.14.3) 

 "Esta é a vitória que vence o mundo: a nossa Fé" 1Jo.5.4

 ¹Carson, D.A.Carson, O comentário de João, Shedd Publicações, 2007
² Calvino, João, O evangelho segundo João, Fiel, 2005

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Do que precisamos afinal?

Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças:
não manuseies isto, não proves aquilo, não toques aquiloutro,
segundo os preceitos e doutrinas dos homens? Pois que todas estas coisas, com o uso, se destroem.
Tais coisas, com efeito, têm aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético; todavia, não têm valor algum contra a sensualidade.
 Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus.
Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra;
porque morrestes, e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus.
Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então, vós também sereis manifestados com ele, em glória.  Cl 2.20-3.4 (ARA)

Os perigos que ameaçam a igreja


É natural que derrotas circunstanciais nos causem frustrações. Mas, pode ser que também experimentemos frustração diante de conquistas! Podemos por exemplo, desejarmos tanto uma pessoa, emprego, carro ou qualquer outro bem material a ponto de declararmos o quanto nossa vida e nossa realização dependem dessa conquista. Somente para depois de alcançarmos termos um sensação boa que dure algum tempo e então ficamos com o estranho sentimento frustrante de "não era bem isso que eu queria".  Esse tipo de frustração vai avolumando dentro de nós a pergunta "do que precisamos afinal?"

A carta aos Colossenses lida com essa pergunta da forma mais profunda possível. No contexto temos Paulo numa prisão em Roma, onde recebe a visita de Epafras (1.7;4.12). Eprafas, aliás é o provável plantador e pastor da igreja em Colossos, que trás um relatório da condição e dos perigos que ameaçam essa igreja. Impulsionado então por esses relatos Paulo escreve a carta de que dispomos. Colossos era uma pequena cidade na Ásia Menor, próxima de Hierápolis, Éfeso e Laodicéia. Conquanto fosse pequena Colossos era uma cidade próspera (embora já decadente na época da carta) e de cultura multifacetada, pois a população era bastante heterogênea. E é exatamente dessa mistura cultural que vem a preocupação do seu pastor Epafras (4.12,13). A carta de Paulo é então uma resposta às principais heresias que ameaçavam a igreja, vindas da mistura cultural local:

  • Ritualismo judaico, observância mistica de certos ritos judaicos.
  • Misticismo oriental, com uma dose de asceticismo (mortificação do corpo)
  • Revelações misticas especiais (Gnosticismo)
Toda essa mistura implicava na insuficiência de Cristo, pois eram adições ao puro evangelho. O que temos aqui então é uma espécie de pluralismo religioso, em que idéias conflitantes coexistem pacificamente e a mensagem fundamental e essencial fica diluída e enfraquecida. Essa também é uma dificuldade dos cristãos da atualidade, ou seja, um pluralismo que enfraquece o cerne da mensagem do evangelho sem, entretanto nega-la por completo. O gnosticismo incipiente que começava ameaçar a igreja de Colossos negava a primazia e a exclusividade de Cristo dissimuladamente fazendo adições às formas externas de religião, dando-lhe um aspecto de humildade e piedade. Entretanto o que Paulo via eram "vãs filosofias", "falsa humildade" e "as sombras das coisas que haviam de vir" sendo elevadas acima do que era essencial, "Cristo em vós, as esperança da glória". A heresia em Colossos negavam dissimuladamente Cristo como Senhor da criação, como verbo que se tornou carne, como aquele que tem a primazia, como o sustentador de todo o universo, como o detentor de "todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento" e principalmente como aquele "é a imagem do Deus invisível" e em quem reside "toda a plenitude".

"Cristo em vós esperança de glória"

A primeira parte da carta, portanto, é doutrinária onde Paulo combate aquela mistura perniciosa apontando principalmente para a exclusividade e suficiência de Cristo:
Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação;
pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele.
Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste.
Ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a primazia,
porque aprouve a Deus que, nele, residisse toda a plenitude. Cl 1.15-19
Gostaria, pois, que soubésseis quão grande luta venho mantendo por vós, pelos laodicenses e por quantos não me viram face a face; para que o coração deles seja confortado e vinculado juntamente em amor, e eles tenham toda a riqueza da forte convicção do entendimento, para compreenderem plenamente o mistério de Deus, Cristo, em quem todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos. Assim digo para que ninguém vos engane com raciocínios falazes. Cl 2.1-4  

"Se morrestes com Cristo" 

 A segunda parte é prática em que Paulo conclama os crentes de Colossos a viverem de modo digno da doutrina que receberam. Devem então se unir a Cristo na semelhança de sua morte e ressurreição. A morte é utilizada por Paulo como simbolo da separação daquela velha forma de pensar. Os "rudimentos do mundo" deveriam ser abandonados, por mais que parecessem piedoso ou sábio (2.20ss). Cristo não aceita adições aos seus ensinos, nem adoração decentralizada. Como diriam os reformadores a mensagem do evangelho é "Solus Christus". Embora o dissessem em relação a fé salvífica entendemos que  "a centralidade de Cristo é o fundamento da fé protestante. Martinho Lutero disse que Jesus Cristo é o "centro e a circunferência da Bíblia" (Solus Christus, Joel Beeke http://www.editorafiel.com.br/artigos). Morremos para tudo o que não se enquadra nessa forma de pensar. Morremos para toda expressão religiosa que não enxerga o mundo a partir de Cristo. Morremos para toda forma de culto que coloca o homem e sua suposta piedade no centro. Morremos para as vãs filosofias, para os preceitos meramente humanos. Morremos para tudo que não se baseia em Cristo somente.

"Se ressuscitates com Cristo"

O evangelho se caracteriza não apenas por aquilo que deixamos de fazer, mas também por aquilo que fazemos em contrapartida. Se a morte trás o simbolismo de tudo o que devemos deixar por causa de Cristo, a ressurreição trás aquilo que devemos nos apegar. A direção das nossas buscas mudaram quando fomos unidos a Ele na semelhança de sua ressurreição. Agora vivemos por princípios elevados. Somos chamados a pensar de modo radicalmente distinto do mundo e por isso não seremos compreendidos. Nossa forma de pensar foi alterada se fomos ressuscitados com Ele. Nossa vida ressurreta agora é de outra natureza, por isso devemos buscar as coisas do alto e pensar nas coisas do alto. Agora vivemos para Ele, vivemos na expectativa da manifestação dele. Paulo nos aponta para 3 aspectos da obra salvifica nesse trecho:
  1. Fomos ressuscitados com Cristo (passado), por isso devemos buscar as coisas do alto. Sabendo que sua ressurreição é garantia da nossa justificação.(justificação)
  2. Estamos guardados em Cristo (presente), por isso devemos pensar nas coisas do alto (santificação)
  3. Seremos manifestados com Cristo (futuro) por isso vivemos de forma elevada que condiz com a expectativa dessa manifestação (glorificação)

Do que precisamos afinal?

Fomos unidos a Ele na semelhança de sua morte e ressurreição de forma que nossa vida só tem sentido se há marcas de que morri para os poderes que outrora me dominavam, e ressurgi pelo poder de Deus e vivo para a glória dEle. Se há consciência de que a morte e a ressurreição reverteram os efeitos da queda. Eis aqui duas palavras muito caras a nós cristãos: Morte e Ressurreiçaõ. Somente uma coisa nos é necessária, o Cristo que morreu e ressuscitou no centro das nossas vidas. Nossa agenda por vezes é tornar nossa vida mais confortável, a agenda de Deus é "fazer convergir nEle todas as coisas" para "em todas as coisas ter a primazia". Ele é "o mistério que estivera oculto dos séculos e das gerações; agora, todavia, se manifestou aos seus santos;aos quais Deus quis dar a conhecer qual seja a riqueza da glória deste mistério entre os gentios, isto é, Cristo em vós, a esperança da glória. (Cl.1.26,27)

"Cristo em vós, a esperança da glória"


Pb Francisco Jr
IPB Emaús