terça-feira, 18 de junho de 2019

DEUS e as NOSSAS DECEPÇÕES


Naamã, capitão do exército do rei da Síria, era um grande homem diante do seu senhor, e de muito respeito; porque por ele o SENHOR dera livramento aos sírios; e era este homem herói valoroso, porém leproso.2 Reis 5:1

Todos sabem que a vida também é feita de decepções, e precisamos aprender a lidar com essa realidade. A história de Naamã nos dá lições a esse respeito. Vamos refletir sobre algumas decepções que a vida nos impõe a partir dessa bela história. O contexto histórico é o conturbado reino dividido de Israel. Divisão essa que se deu após a morte do rei Salomão, e no início do reinado de seu filho Roboão (930 a.C.). Nesse período Israel vivia uma espécie de exílio dentro do seu próprio território, imposto pelos sírios. Portanto Naamã, como comandante do exército sírio e homem de confiança do rei, tinha ascendência sobre os hebreus. Os profetas de Israel procuravam manter certo distanciamento em relação aos governos de fora de Israel, embora fossem tidos como conselheiros e representantes de Deus para seus governantes judeus e seu povo.

1.    Decepção consigo mesmo

O texto acima (2Reis 5.1), é uma introdução à narrativa de mais um milagre atribuído ao profeta Eliseu, que viveu nos já citados conturbados anos do reino dividido de Israel e domínio sírio sobre Israel. É uma descrição da notoriedade de Naamã, como homem de confiança do rei da síria, estrategista, herói de guerra, homem vitorioso. Mas, como vemos ao final da descrição, tinha um “porém”, que representa a primeira decepção de Naamã, e irá desencadear outras decepções em sua história.  Aquele “porém” que nos faz pensar, e perguntar: Quais são os nosso “poréns”?. Aquilo que tentamos esconder a todo custo, inclusive de nós mesmos. Aquele, “porém” que só a intimidade conhece. Podemos dizer que a volta pra casa de Naamã representava o confrontar-se consigo mesmo. Alguém já disse que os “amigos” do homem moderno (rádio, TV, mídias sociais, internet) nos livra do silêncio, pois é nesse silêncio que para muitos aparecem os fantasmas da alma, os “poréns” ficam gigantes.  Vemos na narrativa da história de Naamã que a inesperada exposição diante da escrava judia trouxe muitas inquietações para esse notável comandante sírio e desencadeou uma série de decepções. É importante observarmos também, que essa primeira e fundamental decepção não era algo simples e insignificante. “Na Síria, a lepra apenas incapacitava a pessoa de realizar suas obrigações; Naamã, estando leproso, já não poderia mais obter vitórias para a Síria, o que causava sérias preocupações. Por outro lado, para o povo judeu não era apenas uma doença que tornava o seu possuidor um “inválido”, mas era o símbolo do próprio pecado. Vale ressaltar que não é um mero “símbolo” naquele sentido subjetivo que utilizamos¹, mas a própria marca do pecado, o que é algo sensivelmente mais forte. O povo judeu e os povos antigos não faziam, como nós, esse tipo de abstração. Quando falamos dos elementos da Ceia como “símbolos” do Corpo e do sangue de Cristo, por exemplo, estamos dando aos elementos um valor subjetivo e assim diminuindo o valor do Sacramento.
Portanto, essa primeira decepção de Naamã se reveste de um significado muito forte e intensamente debilitante e depreciativo. Era algo que tornaria Naamã um inválido, sem grande importância, apagaria sua notoriedade. E do ponto de vista dos judeus, alguém distante de Deus por carregar em seu corpo a marca do pecado.(Nm.5.1-4) 

2.     Decepção com seus recursos

Após ser interpelado pela jovem escrava israelita (2 Rs 5.3), Naamã crê em sua palavra e decide pôr um fim nessa debilidade, vergonha e decepção consigo mesmo. Assim, Naamã relatou as palavras da escrava ao seu senhor, que diante do desespero demonstrado por seu comandante decide enviá-lo com uma carta ao Rei de Israel. Naamã então parte com alguns presentes, como se fosse ou pudesse comprar a sua cura. Não poderia imaginar que seria exposto a mais uma decepção. Desta feita a decepção seria com seus recursos materiais.
Quantos estão decepcionados com o que tem, e também com o que não tem. O salmista Asáfe expressou o quanto essa decepção com os recursos pode nos distanciar de Deus (Salmo 73). Jesus também ensinou no Evangelho o quanto o apego e a dependência dos recursos materiais podem gerar um comodismo mortal e uma avareza que as Escrituras definem como idolatria (Lc.12.13-21; Cl.3.5)
Naamã precisou passar por mais essa decepção para aprender que a “a vida de um homem não consiste na abundância de bens que ele possui” (Lc 12.15) e aprendeu também que nada pode ser mais próspero e enriquecedor do que obediência sem questionamentos (2Rs.5.12-14) 

3.    Decepção com a glória humana

Mas as decepções não pararam por aí. Interessante notar que para que haja uma restauração completa o homem precisa ser limpo de todos os conceitos deformados. Por isso Naamã, precisou passar por mais uma decepção. A decepção com a glória humana. Notemos que o comandante sírio agora buscava causar uma forte impressão no profeta, por meio de uma comitiva imponente (v.9). Pensava que essa estratégia provocaria uma atitude igualmente impressionante do profeta (v.11). Ao invés disso o profeta nem se deu ao trabalho de sair e receber a comitiva de Naamã e fazer cena grandiosa de cura, mas mandou um mensageiro dizer o que o comandante tinha que fazer para alcançar a cura (v.10). Diante de mais essa decepção Naamã estava pronto. É assim que o Senhor faz conosco, esgota todos os nossos recursos para que aprendamos a confiar inteiramente nEle (v.15). O oposto de todas as atitudes deformadas de Naamã agora são percebidas, mostrando um homem completamente curado.
  •   A dignidade foi devolvida (v.14) A cura maravilhosa foi alcançada
  •   Naamã agora pode reconhecer que “há Deus em Israel” (v.15)
  •   Naamã vislumbra a Glória do Senhor e reconhece que só a Ele devemos adorar (v.17)
 

Conclusão

Aprendemos com essa belíssima história, que o cristianismo não é feito de “triunfalismo barato”, e que uma vida pura e saudável é feita de derrotas e decepções circunstanciais. Nesses momentos o nosso caráter é trabalhado e alcançamos experiências que farão toda diferença em nossa vida.  As decepções apesar de doloridas, têm função de purificar nossas emoções e nossa mente de pensamentos deformados sobre nós mesmos e sobre Deus.
Todos passamos por decepções na vida, o que nos diferencia são as reações. Alguns tiram ricas  lições dessas circunstâncias, se deixam ser trabalhados, crescem e se aproximam de Deus  com essas experiências; outros se entregam a um vitimismo doentio e alienante. Os primeiros elevam sua forma de encarar a vida e se tornam exemplo a ser seguido. Os outros se tornam “amargos”, vazios e se distanciam de Deus.
Percebemos claramente essa mudança radical na vida de Naamã. Passou de um mero pagão, que se julgava o centro do universo, preso a valores materiais a um adorador humilde, desprendido. Finalmente, Naamã disse: “Se não, por favor, dê-se ao teu servo um pouco de solo, a carga de um par de mulos; porque o teu servo não mais fará oferta queimada nem sacrifício a quaisquer outros deuses, senão a Yahweh.” Naamã expressou humildemente seu desejo de adorar o Deus de Eliseu, mas quis fazer isso em solo israelita, embora tivesse de voltar ao serviço do rei da Síria.2 Reis5:17.

Quanta humildade mental Naamã veio a ter, não se preocupando com qualquer ostentação ou com destacar-se, mas, antes, estando interessado em agradar a Deus, aquele a quem reconhecia então como o verdadeiro Deus! (https://bibliotecabiblica.blogspot.com/2011/08/naama-aprende-ser-humilde.html)
Que o bom Deus use as decepções que sofremos nessa vida e nos faça crescer e se aproximar dEle.

Ao Deus que é “poderoso para fazer infinitamente mais  do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós seja a glória, na igreja e Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém” (Ef.3.20,21

Um comentário:

  1. Quando falamos dos elementos da Ceia como “símbolos” do Corpo e do sangue de Cristo, por exemplo, estamos dando aos elementos um valor subjetivo e assim diminuindo o valor do Sacramento.

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